Sair de casa. Vento frio cortante da manhã. Pareço em tempo de não me atrasar. Incrível como chefes chegam cedo, quando chegamos tarde, e vice-versa. Primeiro bom dia do dia é do carroceiro com cara de ontem. Ele carrega umas tralhas indefiníveis e pergunta pelo Real. Fica pra outro dia.
Pequenas poças da grande chuva da noite passada ilustram o caminho. Procuro passar por elas. Gosto do barulho. Avisto o primeiro sinal ao longe; está vermelho, vou devagar pra abri-lo com a demora; o cara detrás não entende; primeira buzina do dia. As pequenas incompreensões do trânsito são microcosmos das maiores da vida. Passa apenas por não se colocar no lugar do outro. O apressadinho se posta ao meu lado, olha pra mim com cara de nojo, a minha não devia estar melhor, dois segundos se passam, cansamos de nos desafiar, o sinal abre e ele acelera forte, autoafirma-se e se vai.
Não tarda a vir a primeira fila indiana de automotivos, bem de acordo com a proposta da pós-modernidade: trabalhe muito, ganhe algum, compre um carro, preencha as ruas, enlouqueça um pouco, trabalhe mais, pague um analista, olhe pros ônibus lotados, conforme-se. Opa, essas divagações quase me jogam numa cratera. A prefeita disse que vai consertar quando as chuvas pararem. Até lá, salve-se quem e como puder.
Outro sinal. Esse trifásico, mais demorado. Vem um menino com panfleto escrito a mão dizendo “tô com fome”. Não desacredito, mas por que ele pega os trocados e não vai direto comprar comida? O marketing da miséria é eficiente: faz a gente questionar todos os nossos sonhos com Ibiza e Punta. Abriu.
Ai, tenho que mudar de faixa, se não, perco a entrada, mas o pessoal não deixa, o jeito é ir mudando aos poucos e agüentar os apitos prolixos de xingamentos. Deu certo quase em cima da ilha do Detran. Melhor assim do que de jeito nenhum. Pequena vitória na batalha da seleção natural do tráfego: sinto-me mais adaptado às idiossincrasias da urbe do que quando tinha só uma PPD e não uma CNH. Evolução da espécie bichus condutoris. Ilusão motorista, alegria passageira: passei em mais um buraco, tilintam no cérebro moedas vazantes – entrantes no bolso do cara da revisão.
Mais uma do capítulo “imagens do caminho”: um motel contíguo a uma igreja evangélica. Porta à esquerda, cai-se na perdição; porta à direita, encontra-se Jesus. Bem que me diziam, “quando eu era criança pequena lá em Barbacena”, que na cidade grande a gente encontra de tudo. Só não pensava ver tudo tão perto, ao lado, por cima, por debaixo dos panos, e dentro dos bolsos.
O sinal demora tanto. Dá tempo escrever dois parágrafos no córtex.
Carro ao lado. Um senhor de uns trocentos anos praticamente agarrado à direção. Ele quase a abraçava como se fosse lhe fugir. Deu pena imaginar seus filhos, netos e bisnetos preocupados se ele voltaria ou não pra casa diante da realidade inquestionável do risco incalculável que é ele ainda dirigir. Tomara tudo tenha corrido bem. Não quero negro meu humor.
Reparar o velho me fez desaperceber a ameaça iminente. Lá vinha, armado de borrifador apontado pra mim. Não teve jeito, não deu tempo, meus sinais espalhafatosos já não adiantaram, a água se espalhava no vidro. E agora, cadê as moedas, não as acho, o sinal vai abrir, o cara vai ficar indignado se não financiar sua droga, seus olhos vermelhos não parecem compreensíveis a qualquer explicação, sua mão estirada espera a resposta. Achei 25 centavos no assoalho, ufa.
Já saí há um tempão. Muita coisa aconteceu, mais ainda me passou pela cabeça. E o dia só está começando. E o meu chefe chegou antes de mim.


